A Serra do Mendro revela uma paisagem invulgar, marcada por solos de morfologia pouco suave e por uma mancha única de xisto que assinala a transição entre o Alto e o Baixo Alentejo. É neste território que solos esqueléticos definem uma identidade singular. O ponto mais alto da Serra do Mendro situa-se na Herdade Aldeia de Cima, atingindo os 424 metros de altitude.
Os solos esqueléticos que hoje pisamos, compostos por xistos, granitos, gabros e quartzitos, constituem uma expressão do Maciço Antigo Ibérico, formação geomorfológica associada à cadeia montanhosa Varisca, formada durante a era Paleozoica. Considerada a unidade geomorfológica mais antiga da Península Ibérica, esta estrutura está na origem da Falha da Vidigueira, ainda ativa, marcada por deslocações tectónicas verticais do tipo horst, que elevaram rochas xistentas a diferentes altitudes e moldaram uma paisagem singular.
É neste contexto geológico que a Herdade Aldeia de Cima, situada na Serra do Mendro, atinge os 424 metros de altitude, revelando uma biodiversidade excecional.
Apesar da ideia generalizada de uma planície alentejana, da paisagem a perder de vista, dos campos de trigo que hoje não são mais do que paredes intermináveis de olivais intensivos, na verdade, para as pessoas da terra, o que não falta no Baixo Alentejo são serras, e de norte a sul são seis no total:
Serra de Grândola – 383 m
Serra de Portel – 418 m
Serra do Mendro – 424 m
Serra da Adiça – 522 m
Serra do Cercal – 378 m
A sudoeste peninsular, o Alentejo é a região mais rebaixada do que resta de uma velha cadeia de montanhas, a que alguns autores chamam de Hercínica e outros de Varisca, que começou a elevar-se no oceano há cerca de 380 milhões de anos.
O montado alentejano é um ecossistema singular e um dos 36 hotspots mundiais de biodiversidade do planeta, identificado pela Conservation International como área ameaçada.
Formado pela paisagem natural mais complexa do Mediterrâneo Ocidental, o montado é o principal sistema agrossilvopastoril da Europa. Uma floresta única com mais de 200 espécies de animais, 135 espécies de plantas e 140 ervas aromáticas e habitats heterogéneos transformados pelo homem num mosaico de usos.
Com cerca de um milhão de hectares no Alentejo, este território representa atualmente 28% da área global de montado e tem um papel crucial na retenção de CO2 — cerca de 6 toneladas por hectare por ano.
Aqui permanecem os habitats naturais com os matos de estevas, sargaços, tojos, giestas, carrasco e silvas, entrecortados com gramíneas espontâneas, ideais para espécies sedentárias como a perdiz ibérica, a lebre, o faisão, o sisão, a raposa, o saca-rabos, o javali e o porco preto alentejano. Nestas terras livres de poluição é comum avistarmos cegonhas, pardais e pintassilgos, além de imponentes aves de rapina como o abutre-preto ou o milhafre-real.